Inclusão Cultural em Ponta D’ Água por Augusto Silva

Links para participar da #SalaVirtual da AgendaMIC na Live do Léo

Acontece agora na sala virtual: https://meet.google.com/kdy-jbuy-tjg

ACOMPANHE E COMENTE NO YOUTUBE

 

Augusto Silva, morador de Ponta D’ Água – povoado do município Morro do Chapéu-BA, é o convidado da #agendamic dessa terça-feira, 16/03, e comentará sobre a inclusão cultural em sua comunidade. O bate-papo começa às 18 horas na #salavirtual dos Meet e a partir das 18:15 passa a ser transmitida na Live do Léo, no YouTube, ambas plataformas do Google. Marque o evento na sua Agenda. Clicando no botão no final dessa página.

 

Inclusão Cultural em Ponta D’ Água por Augusto Silva

 

A princípio, me pareceu um tanto quanto difícil falar de “Inclusão Cultural”, usando minha realidade como pano de fundo. Confesso, meu receio  diante da realidade  socio-cultural em que vivemos. Mas não posso me esquecer dos “talentos ocultos” em minha Comunidade. A.S.

É impossível falar de Ponta D’ Água, sem mencionar sua veia religiosa, representada desde os primórdios por nosso  padroeiro São Sebastião, que por sua vez, “livrou” nossa comunidade da Peste, doença que assolava toda nossa região. Eis, que os apelos ao Marte Guerreiro, se fez cumprir, dando espaço à promessa feita por Dona Josefa Brito, ainda na década de 30, há mais de 90 anos: se a peste não chegasse em Ponta D’ Água, por intermédio de São Sebastião, dalí por diante sua novena, suas missas e sua festa seriam feitas.

Imagem do Marte guerreiro, São Sebastião, no dia da sua festa, 20 de janeiro de 2021 no povoado de Ponta D' Água.
A data 20 de janeiro, dia de São Sebastião, é sem dúvidas a mais aguardada por todos pontadaguenses, é quando os fiéis renovam sua fé, nos 9 (nove) dias de novena (preparação pra a Santa Missa em homenagem a São Sebastião), sempre realizada no dia 20 de janeiro.

É também quando os parentes e amigos que moram fora, arranjam um tempinho para rever os que aqui deixaram, claro, relembrar com os primos e colegas, as travessuras que aprontavam nos pés de manga, já que somos a “terra da manga” tomando banho de rio… Por falar em rio, a água  que sempre foi motivo de orgulho por sua abundância, hoje, infelizmente,  tornou-se motivo de disputas e rivalidades entre os próprios moradores. Sinto em dizer, mas os riachos e as fontes que cercavam nosso povoado, já não cercam mais! A água? Água cortou! E a fonte? A fonte secou. A riqueza que tivemos um dia, já não temos mais.

Sinto, na fala dos mais velhos a saudade dos primeiros anos dessa festa, quando ainda não se tinha luz elétrica mas tinha água. Quando a música era ao som das sanfonas e de berrantes tocados pelos  vaqueiros das fazendas das redondezas com seu tradicional arrasta-pé, até o dia clarear.

Percebo no olhar de quem viveu esse “tempo bom”, saudade, alegria e até uma certa inocência, pois sabem que os tempos são outros e o que foi vivido não voltará ao que já foi um dia. Talvez porque saibam que nos dias de hoje, já não se encontra sanfoneiros como antigamente, vaqueiros que toque seu berrante como faziam em dias de festa, como por exemplo em Dia de Reis, quando a “vaqueirama” se reunia ainda às escuras e saiam de casa em casa tocando suas sanfonas e seus berrantes; talvez essa seja a verdadeira saudade, de um tempo que foi vivido, foi aproveitando, como deveria ser e depois foi dando espaço aos novos tempos. Tempos de incertezas, confesso, porém esse é um novo tempo. Acostumemo-nos a ele…

Falar de Inclusão Cultural em Ponta D’Água, é relembrar as tradicionais festas juninas, quer Cultura mais inclusiva que festa junina? Só mesmo o tradicional  pau-de-sebo, ou ainda  as fogueiras em pé, clareando o céu negro como breu. Os pratos típicos,  as brincadeiras,  as danças,  as pessoas e até as crianças entravam na roda; roda que rodava, não roda mais… pelo menos,  não com a mesma força e alegria. Mas devo reconhecer, continua rodando, a passos lentos de um novo tempo chamado juventude!

Poucos são aqueles que deram continuidade às atividades que seus pais exerciam, pois eram as mesmas atividades exercidas por seu avós. Claramente,  não os condeno. Se fosse assim,  eu seria vaqueiro como meu avô era, ou minha irmã cuidaria da casa/sede de alguma fazenda, como nossa vó cuidava! Todavia nossos caminhos foram outros, bem diferente desses.

Fato concreto, não dá  para falar de Ponta D’Água sem deixar de citar sua agricultura familiar e de subsustento que movido pelo suor provocado pelo  trabalho pesado do “cabo de enxada”, nunca deixou faltar o alimento à  mesa de nenhum de nós.

Casa de Farinha

A começar pela por aquela, atualmente em abandono, senão total, parcial, Casa de Farinha, que muito trabalho já deu aos nossos moradores e muito já ajudou as famílias, que com seu suor, plantavam as Manivas (mandioca) e depois iam colher o fruto do seu trabalho onde a mesma era produzida,  além disso, produziam tapioca e os deliciosos beijus; tanto para ser vendido,  quanto para seu próprio consumo.

 

Casa de Farinha do Povoado de Ponta D' Água, encontra-se, praticamente, às ruínas!
Casa de Farinha do Povoado de Ponta D’ Água, encontra-se, praticamente, às ruínas!
Casa de Farinha do Povoado de Ponta D' Água, encontra-se, praticamente, às ruínas!
Casa de Farinha do Povoado de Ponta D’ Água, encontra-se, praticamente, às ruínas!

Confesso que um dos meus maiores desejos para Ponta D’ Água, é ver a casa de farinha reformada e revitalizada… é um bem comum que servirá toda nossa comunidade.

 

Falando em Inclusão Cultural em Ponta D’ Água, não dá  para esquecer das mulheres que volta e meia são vistas, ainda nos dias atuais, ensinando suas filhas, como costurar, fazer crochê, tricotar como fazer fuxico (técnica de⁶ costura)… meia volta somos presenteados com lindas peças deste tipo como couxas para cama, lençóis, cortinas, capas de sofá, caminhos para mesa ou aparadores, panos de prato, cachecóis, tapetes, conjuntos inteiros para utensílios domésticos, etc…. Claramente, por ser uma comunidade relativamente pequena, o incentivo e ah Inclusão Cultural parte muito mais dos próprios moradores do que de qualquer outra força  externa,  isso para não dizer,  zero incentivo e zero inclusão. Talvez esses próprios “talentos ocultos”, nem saibam o que seja Inclusão Cultural. Obviamente não os culpo por isso, de forma alguma; apenas digo que uma sociedade precisa muito mais que visitas de dois em dois anos, ou de quatro em quatro anos! Apenas estou dizendo que tais “talentos ocultos” precisam ser revelados, para que eu possa tirar as aspas, e principalmente, para que os trabalhos dessas pessoas ultrapassem os limites geográficos de nossa pequena comunidade.
É necessário mais que apenas promessas que NÃO SÃO  CUMPRIDAS, é preciso  urgentemente repensar as comunidades, enxergando seu verdadeiro potencial de elaboração,  criação e venda dos seus produtos.

Quando digo que a roda continua rodando a passos lentos, chamado juventude, refiro-me aos que, de alguma forma estão fazendo algo, ainda que pouco, porém dentro das suas possibilidades. Pois, fato é, queiramos ou não, os tempos mudaram, o tempo não aspirou, como muitos pensam, o tempo tem se tornado cada vez mais digital, inclusive entre nós da zona rural.  Me alegro ao perceber que algumas mães estão ensinando o que sabem à suas filhas, filhas essa que poderão ensinar às netas de sua mãe,  o que aprendeu com ela… assim por diante!
Folgo em saber que o grupo jovem da Capela São Sebastião,  tem se mostrado cada vez mais forte na missão de dar sequência a uma promessa feita quando nenhum deles sonhava em nascer. Pois o tempo, ah, que bons tempos das sanfonas, dos berrantes e arrasta-pé, por mais bonito que tenha sido, não voltará. Tornou-se um lindo quadro que ficará pendurado no coração  e na memória de quem pôde viver esses momentos…

A roda viva da vida precisa continuar girando. Torçamos por um reconhecimento maior por parte dos nossos governantes.

Entendamos a importância da Educação na vida da nossas crianças e adolescentes, e, que nós moradores e moradoras de Ponta D’ Água, saibamos nos portar, para quê  nenhum dos nossos padece à sombra dos desvalidos.

Por fim, concluo que falar de cultura no meu cotidiano foi mais fácil do que imaginei. Bastou ligar um tecla chamada “GENTE”, gente essa que conheço desde que cheguei aqui, ainda com 4 (quatro) anos, vindo com minha família  de Salvador onde nasci. Muitos me viram crescer, outros tantos e tantas cresceram comigo, correndo na mesma rua que eu, jogado a mesma partida de futebol e outros eu estou vendo nascer, crescer e se desenvolver… então só posso desejar um futuro brilhante para nós todos! E saibamos, não se constrói um bom futuro sem educação, saúde, conhecimento, arte e cultura! Não nos calemos, jamais! Sempre é tempo de construir uma realidade nova, de uma vida nova, de uma Inclusão Cultural nova, todo dia, o dia todo, aqui em
Ponta D’ Água!!!

Por: Augusto Silva, autor do artigo  “Inclusão Cultural em Ponta D’ Água”, publicado no portal #AGENDAMIC – MOVIMENTO DE INCLUSÃO CULTURAL. Morador do Povoado de Ponta D’ Água, no município de Morro do Chapéu – BA.

  • Aluno de escola pública, sempre acreditou na educação, como único meio de transformação de vidas.
  • Em 2012, ingressou no Ensino Médio, na 3° turma de Agropecuária,  do Jubilino Cunegundes, que posteriormente, viria se tornar CEEP – Centro Estadual de Educação Profissional.
  • Já em 2013, participou do Concurso TAL( Tempo Da Arte Literária), concorrendo com o poema “AMOR”,  ocupando, portanto,  o 3° lugar.
  • Em 2015, ainda no CEEP, participou do mesmo Concurso (TAL), com a História  Dramática, “Ele  Sabe Onde Deus Mora”. Uma linda história de amizade entre dois homens com idades diferentes, mas vivendo o mesmo drama; juntos, eles descobrem que encarar a vida com leveza e alegria, pode ser mais fácil do que imaginavam. Acabou desta vez, conquistando o 1° lugar.
  • No final desse mesmo ano, 2015  Concluiu seu Curso Técnico em Agropecuária. Se manteve alguns anos afastado de todas suas atividades, cuidando da saúde.
  • Em 2020, retomou os estudos, cursando Administração, no mesmo Centro de Ensino onde havia se formado, hoje, atual CETEP Chapada Diamantina.

Data

mar 16 2021
Expired!

Tempo

18:15

Localização

Sala Virtual da AgendaMIC
Categoria
Welton Matos da Cruz

Organizador

Welton Matos da Cruz
Fone
(74) 99944-2140
E-mail
weltonmatos7@gmail.com
Website
https://www.linkedin.com/in/weltonmatos/

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Voltar ao Topo