Um domingo no quilombo Ouricuri II em Morro do Chapéu

Um domingo no quilombo Ouricuri II em Morro do Chapéu

            Domingo 10 de Janeiro de 2021, 8 horas da manhã, o sol arde desde cedo neste canto abençoado do sertão baiano. A pequena caravana do Movimento de Inclusão Cultural chega na comunidade quilombola de Ouricuri II. A missão: levar para o Mundo as vozes, a força e a beleza do povo daqui.

            Acompanhamos o grupo de capoeira Vem Vadiá, Camará (a família V.V.C., como eles se autodenominam)a caminho da feira onde foi realizada a tradicional “roda de capoeira”, declarada como Patrimônio Cultural Imaterial da Humanidade pela UNESCO (Organização das Nações Unidas para Educação, Ciência e Cultura). No local também tivemos oportunidade de trocar ideias com os feirantes, levantando informações, conhecendo o modo de vida, as produções e as demandas dos moradores. Sobretudo assimilando um pouco da imensa sabedoria, e do infinito calor humano que encontramos em abundância em contato com aquele povo.

Foto: MIC

            Mais tarde foi a hora das oficinas. Entramos na casa dos estagiários Manhosa e Tubarão (apelidos de Gleide e Lindomar na capoeira), hoje transformada na sede da família V.V.C. Na garagem, adaptada como uma academia, o mestre Franck do Grupo Axé Brasil de Irecê, convidado especial do evento, ofereceu a primeira oficina do dia: uma palestra abordando a musicalidade e os instrumentos da capoeira. O público composto principalmente pela garotada da V.V.C., escutou com atenção e disciplina e absorbeu ricos conhecimentos, enquanto o som do berimbau, do atabaque e do pandeiro marcavam o ritmo da manhã de domingo no quilombo.

Foto: MIC

            Pouco depois a instrutora Esmeralda, representando junto com o monitor Oréia o Grupo Toca do Leão, de Morro do Chapéu, apresentou uma aula prática de criação de caxixis (pequeno instrumento de percussão tradicional da cultura africana, e em especial da capoeira), com fita plástica reciclada, mostrando para os meninos que participaram, a estreita relação da cultura da capoeira com a sustentabilidade e a proteção do meio ambiente. 

A instrutora Esmeralda do Grupo Toca do Leão. Foto:MIC

            A continuação, foi a vez do Maculelê. O mestre Pastor Júnior, do Grupo de Capoeira Araúna de Irecê, ministrou a terceira oficina do evento. Os participantes caracterizados com saias confeccionadas com sacos de linhagem e equipados com dois bastões ou “grimas”, praticaram os movimentos básicos dessa bela dança guerreira, ao som das velhas cantigas dos negros canavieiros, acompanhadas pela batida dos atabaques.  Para finalizar a oficina, os monitores Pesado, Gentileza e Bondoso, do Grupo Araúna, junto a Zabelê e Águia, graduadas do grupo anfitrião, deram uma demonstração impressionante de Maculelê com facões. O Maculelê faz parte do folclore brasileiro, é símbolo de luta e resistência preservado por séculos através dos ensinamentos dos mestres, a pesar dos inúmeros obstáculos (escravidão, desprezo, censura, perseguição, exclusão, proibição etc.). Maculelê revive e resiste hoje na alma dos remanescentes quilombolas de Ouricuri II, graças aos esforços e a generosidade de pessoas como Mestre Pr. Júnior, estagiário Tubarão e Mainha Manhosa, que fizeram possível este evento tão valioso.

Foto: MIC

            A quarta e última oficina foi o Samba de Roda. O samba de roda, originário da região do Recôncavo Baiano foi o primeiro gênero musical brasileiro a se tornar Patrimônio Oral e Imaterial da Humanidade pela Unesco, em 2005. Com a direção de Zabelê, e a colaboração do mestre, os instrutores e monitores presentes, o grupo de capoeira local apresentou-se dançando o samba de roda e encantando todo mundo com a graça dos seus movimentos. Como indica a tradição, a roda de samba encerrou o ciclo de oficinas com música e alegria.

            Para concluir a jornada: confraternização e banquete com salgados produzidos na comunidade, galinha caipira e pirão. Enfim, um evento recheado de emoções para continuar fortalecendo a cultura e os valores fundamentais do ser humano, presentes sempre na capoeira e na essência do nosso movimento.  

A família V.V.C. apresentando Samba de Roda. Foto: MIC

Viemos para dar testemunho das coisas belas que por aqui acontecem, capturar muitas imagens e conversar um bocado. E quando saímos, no começo da noite, levamos muito mais do que esperávamos: o coração cheio de alegria, desbordando emoções depois de um dia de vivências inesquecíveis.

Foto:MIC

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